C:\Users\09017088\AppData\Local\Microsoft\Windows\INetCache\Content.Word\ec_vertical.png

Volume

13

Edição

2

*Autor(a) correspondente lcteixeiracoelho@prefeitura.rio

Publicado em 15 out 2025

Como Citar?

RODRIGUES, C. S. Os desafios do desenvolvimento do Rio de Janeiro. Coleção Estudos Cariocas, v. 13,n. 2, 2025.
DOI: 10.71256/19847203.13.2.209.2025

O artigo foi

originalmente

submetido em PORTUGUÊS.

As traduções para

outros idiomas foram

revisadas e validadas

pelos autores e pela

equipe editorial. No

entanto, para a

representação mais

precisa do tema

abordado,

recomenda-se que os

leitores consultem o

artigo em seu idioma

original.

A grey and black sign with a person in a circle

Description automatically generated

Os desafios do desenvolvimento do Rio de Janeiro 

The challenges of Rio de Janeiro’s development

Los desafíos del desarrollo de Río de Janeiro

Clara Sanchez Rodrigues1*

1Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos, R. Gago Coutinho, 52 - Laranjeiras, Rio de Janeiro- RJ, 22221-070, ORCID 0009-0000-3640-2608, clara.sanchez@prefeitura.rio.

O Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos reafirma, com esta edição da Revista Coleção Estudos Cariocas, seu compromisso com a produção e a difusão de conhecimento voltado à compreensão da realidade e ao aperfeiçoamento das políticas públicas urbanas na Cidade do Rio de Janeiro.

O dossiê especial “O futuro do desenvolvimento do Rio de Janeiro” reúne oito artigos selecionados pelo método double blind review e um artigo de opinião, que buscam compreender as transformações econômicas e apontar possíveis caminhos para o futuro da cidade. Os trabalhos analisam, sob distintas abordagens, o papel do Rio de Janeiro na retomada do desenvolvimento nacional, especialmente diante das contradições que emergem da desindustrialização, desigualdade social e transformações no uso e na regulação do território urbano.

Um diagnóstico compartilhado pela maioria dos artigos do dossiê especial é de que o estado do Rio de Janeiro, e mais agudamente sua capital, passou por um processo de desindustrialização evidenciado pela perda de importância da indústria da transformação nos indicadores econômicos e na paisagem urbana.

O artigo “Desindustrialização precoce: uma análise sobre o estoque de empregos formais da indústria de transformação carioca” (Carvalho et al., 2025) demonstra, a partir de dados estatísticos oficiais, como os empregos da indústria da transformação encolheram no estado, na região metropolitana e na capital fluminense ao longo do século XXI, tanto em valores absolutos quanto relativos. Entre 2006 e 2021, o setor passou de 153 mil para 128 mil empregos formais na Cidade do Rio de Janeiro, ou seja, uma perda de 16%. A participação do setor no conjunto do mercado de trabalho formal do município caiu de 7,8% para 6,1% no mesmo período. Considerando esse cenário, os autores ressaltam a importância do protagonismo do Estado no desenvolvimento de políticas de reindustrialização.

Analisando as mudanças qualitativas do setor, o artigo “Mercado de trabalho e complexidade produtiva na indústria de transformação da Cidade do Rio de Janeiro em perspectiva comparada” (Maggi, Aucar, 2025) aponta para uma perda não somente de número de empregos, mas também de valor agregado e intensidade tecnológica da produção carioca. Utilizando dados oficiais de emprego formal e comércio exterior, os autores propõem uma classificação de atividades industriais por nível de complexidade produtiva (alta, média-alta, média-baixa e baixa) e um índice que sintetiza e mensura, em termos numéricos, esse nível no território. A partir desse método é possível observar uma perda de empregos proporcionalmente maior nas atividades de alta complexidade e uma queda mais intensa do índice de complexidade produtiva (ICP) no município do Rio de Janeiro em comparação com o estado do RJ e o município de São Paulo.

O processo de desindustrialização deixou marcas na paisagem urbana: o subúrbio ferroviário carioca, outrora privilegiado pelo ciclo desenvolvimentista do século XX, hoje concentra ruínas de antigas fábricas. Adotando uma abordagem multiescalar que cruza geoinformação, história social e microanálise socioespacial, o artigo “Impactos da industrialização e desindustrialização no Rio de Janeiro: uma investigação nos subúrbios ferroviários da Zona Norte da cidade” (Albernaz, Contarato, Diógenes, 2025) evidencia que, já em 1920, somente os distritos de Inhaúma e Irajá concentravam 27% da população ativa empregada em indústrias na cidade. A pesquisa também mapeou as “porções do tecido urbano onde existiu, ou ainda existe, um estabelecimento fabril” (Ibid., p. 3), denominadas de remanescentes industriais. O trabalho aponta que “no total dos remanescentes industriais levantados, desde antes de 1930 até os anos 2000, mais da metade perdeu sua função fabril” (Ibid., p. 13) e, destes, aproximadamente 1/4 permaneciam inativos, sem terem sido reconvertidos para novos usos.

Esses remanescentes industriais, contudo, não são apenas marcas de processos de desvalorização, mas também carregam um potencial de reapropriação, conforme ressaltado no artigo “Refuncionalização de remanescentes industriais nos subúrbios ferroviários da Zona Norte do Rio de Janeiro: obstáculos e oportunidades para reindustrialização” (Albernaz, Alves, Diógenes, 2025). De todos os 250 casos de remanescentes industriais mapeados na Área de Planejamento 03 da Cidade do Rio de Janeiro, 26,1% haviam sido reconvertidos para novos usos, principalmente residenciais e comerciais, como condomínios e shoppings centers. Diferentemente do observado em cidades do Norte Global, “onde a revalorização de antigos complexos industriais está frequentemente associada à patrimonialização e à requalificação urbana” (Ibid., p. 9), esses espaços no subúrbio carioca se tornam objeto de disputas em um contexto marcado pela precariedade e pela ausência do interesse público. As autoras, portanto, apontam para a necessidade de estruturação de novos arranjos institucionais e técnicos que levem em consideração o legado fabril e que visem à transformação social e à dinamização do território.

Segundo o artigo “A influência do contexto político na desindustrialização do Rio de Janeiro” (Trece, 2025), essa deterioração da indústria da transformação carioca e fluminense está relacionada à “ausência de implementação de um plano de desenvolvimento econômico regional” (Ibid., p. 18) em um contexto politicamente conturbado no estado desde as últimas décadas do século XX. Em 1985, dez anos após a fusão da Guanabara com o Rio de Janeiro, a indústria da transformação representava 10,1% do valor adicionado bruto fluminense. Essa participação cai para 6,5% em 2022. Trata-se do pior resultado acumulado no período entre todas as unidades federativas. Um dos legados da condição de ex-capital nacional teria sido a “falta de priorização de atendimento dos interesses locais” (Ibid., p. 18), associada às crises políticas e à acomodação com receitas provenientes da extração de petróleo. Uma reação a esse processo, segundo a autora, pode partir de um planejamento que tente aproveitar oportunidades abertas pela transição energética.

A transferência da capital federal sem qualquer tipo de compensação à economia regional também é ressaltada no artigo “Projeção internacional como estratégia de desenvolvimento: o Rio de Janeiro e a perda de competitividade industrial” (Pinotti, et al., 2025). À transferência ainda se soma a crise dos anos 1980 e a subsequente restrição das capacidades de investimento público indutor de desenvolvimento como causas do processo de desindustrialização do Rio de Janeiro, segundo o autor. Buscando contornar o esvaziamento produtivo e aproveitar vantagens da histórica capitalidade carioca, sucessivos governos lançaram mão de uma paradiplomacia e da projeção internacional da cidade como estratégia de captação de investimentos e de promoção de desenvolvimento. Grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas são emblemáticos dessa estratégia. O autor conclui, contudo, que essa paradiplomacia é condição necessária, mas não suficiente para reverter o desadensamento das cadeias produtivas locais, sendo então necessárias políticas públicas de desenvolvimento econômico capazes de reverter condições estruturais.

Essas condições estruturais para o adensamento produtivo passam também pela agricultura: conforme o artigo “A agricultura urbana e a natureza no/do planejamento urbano: uma revisão a nível federal e carioca” (Souza, Costa, 2025), a evolução normativa do Rio de Janeiro evidencia que a agricultura passou a ser reconhecida como “componente estratégico do planejamento territorial e da promoção da sustentabilidade socioambiental” (Ibid., p. 15). Se, em Planos Diretores anteriores, a agricultura foi relegada a áreas de restrição do uso do solo urbano, ela passa a ser autorizada em todo o território carioca e até mesmo incentivada pela legislação atual, entendida como uma espécie de “buffer entre áreas de urbanização mais intensa e áreas de proteção ambiental” (Ibid., p. 13). Políticas públicas recentes, segundo os autores, têm dado crescente atenção à agricultura urbana enquanto ferramenta na promoção da segurança alimentar e no fortalecimento de economias locais.

O artigo “Projeto Rio 2050” propõe uma interpretação de longo prazo para os impasses do desenvolvimento carioca, articulando economia, território e política pública a partir do conceito de projetamento. Ao compreender o desenvolvimento não como resultado espontâneo do mercado, mas como processo intencional de mobilização das forças produtivas, o texto insere o planejamento urbano no centro da estratégia de reindustrialização da cidade. O Rio de Janeiro é pensado como território capaz de articular grandes projetos urbanos, de infraestrutura e de mobilidade a uma nova dinâmica produtiva, orientada simultaneamente à elevação da produtividade e à redução das desigualdades sociais e territoriais. Nesse sentido, o artigo oferece um marco conceitual que dialoga com os diagnósticos apresentados ao longo do dossiê e aponta para a necessidade de reconstrução de uma capacidade estatal de planejar, coordenar e executar projetos estruturantes, recolocando a cidade no debate nacional sobre desenvolvimento.

Em conjunto, os artigos que compõem este dossiê especial revelam que os desafios do desenvolvimento do Rio de Janeiro são, ao mesmo tempo, econômicos, territoriais, institucionais e políticos. A desindustrialização, a perda de complexidade produtiva, a fragmentação do território urbano e o enfraquecimento da capacidade de planejamento não são fenômenos isolados, mas dimensões interligadas de um mesmo processo histórico. Ao reunir diagnósticos empíricos, análises normativas e proposições estratégicas, esta edição da Revista Coleção Estudos Cariocas reafirma o papel do conhecimento como instrumento fundamental para a formulação de políticas públicas. Mais do que registrar um quadro crítico, o dossiê aponta caminhos possíveis para a reconstrução de uma agenda de desenvolvimento que seja socialmente inclusiva, territorialmente equilibrada e ambientalmente sustentável, reafirmando o protagonismo do município do Rio de Janeiro no debate sobre o futuro do desenvolvimento urbano no Brasil.

Referências

ALBERNAZ, M. P.; ALVES, M. L.; DIÓGENES, M. G. Refuncionalização de remanescentes industriais nos subúrbios ferroviários da Zona Norte do Rio de Janeiro: obstáculos e oportunidades para reindustrialização. Coleção Estudos Cariocas, v. 13, n. 2, 2025. DOI: 10.71256/19847203.13.2.152.2025.

ALBERNAZ, M. P.; CONTARATO, C., DIÓGENES, M. Impactos da industrialização e desindustrialização no Rio de Janeiro: uma investigação nos subúrbios ferroviários da Zona Norte da cidade. Coleção Estudos Cariocas, v. 13, n. 2, 2025. DOI: 10.71256/19847203.13.2.151.2025.

BOA NOVA, V. V. F., JABBOUR, E. M. K. ‘Projeto Rio 2050’: o projetamento como estratégia de desenvolvimento econômico e social do Rio de Janeiro para as próximas décadas. Coleção Estudos Cariocas, v. 13, n. 2, 2025. DOI: 10.71256/19847203.13.2.158.2025.

CARVALHO, N. S., et al. Desindustrialização precoce: uma análise sobre o estoque de empregos formais da indústria de transformação carioca. Coleção Estudos Cariocas, v. 13, n. 2, 2025. DOI: 10.71256/19847203.13.2.161.2025.

FERNANDES, M. P. Sobre o sentido econômico do desenvolvimento. Coleção Estudos Cariocas, v. 13, n. 2, 2025. DOI: 10.71256/19847203.13.2.192.2025.

MAGGI, D.M.; AUCAR, L.N. Mercado de trabalho e complexidade produtiva na indústria de transformação da Cidade do Rio de Janeiro em perspectiva comparada. Coleção Estudos Cariocas, v. 13, n. 2, 2025. DOI: 10.71256/19847203.13.2.162.2025.

PINOTTI, E. F. et al. Projeção internacional como estratégia de desenvolvimento: o Rio de Janeiro e a perda de competitividade industrial. Coleção Estudos Cariocas, v. 13, n. 2, 2025. DOI: 10.71256/19847203.13.2.168.2025.

SOUZA, Y. E. T. S; COSTA, H. S. M. A agricultura urbana e a natureza no/do planejamento urbano: uma revisão a nível federal e carioca. Coleção Estudos Cariocas, v. 13, n. 2, 2025. DOI: 10.71256/19847203.13.2.137.2025.

TRECE, J. C. C. A influência do contexto político na desindustrialização do Rio de Janeiro. Coleção Estudos Cariocas, v. 13, n. 2, 2025. DOI: 10.71256/19847203.13.2.154.2025. 

Sobre a Autora

Clara Sanchez Rodrigues é economista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013), com passagens como bolsista do CNPq. Sua trajetória acadêmica inclui uma monografia sobre desenvolvimento e divisas e um mestrado na Escola Superior de Guerra, onde pesquisou as estruturas hegemônicas dos EUA no século XXI. Com experiência em Economia e Gestão, atualmente exerce o cargo de Diretora Executiva do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos.

Contribuições da Autora

Conceituação, C.S.R.; metodologia, C.S.R.; software C.S.R.; validação, C.S.R.; análiseformal, C.S.R.; investigação, C.S.R.; recursos, C.S.R.; curadoria de dados, C.S.R.;redação—preparação do rascunho original, C.S.R.; redação—revisão e edição C.S.R.;visualização, C.S.R.; supervisão, C.S.R.; administração do projeto, C.S.R.; aquisição de financiamento, C.S.R. Todos os autores leram e concordaram com a versão publicada do manuscrito.

Conflitos de Interesse

A autora declara não haver conflitos de interesse.

Sobre a Coleção Estudos Cariocas

A Coleção Estudos Cariocas (ISSN 1984-7203) é uma publicação de estudos e pesquisas sobre o Município do Rio de Janeiro, vinculada ao Instituto Pereira Passos (IPP) da Secretaria Municipal da Casa Civil da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Seu objetivo é divulgar a produção técnico-científica sobre temas relacionados à cidade do Rio de Janeiro, bem como sua vinculação metropolitana e em contextos regionais, nacionais e internacionais. Está aberta a quaisquer pesquisadores (sejam eles servidores municipais ou não), abrangendo áreas diversas - sempre que atendam, parcial ou integralmente, o recorte espacial da cidade do Rio de Janeiro.

Os artigos também necessitam guardar coerência com os objetivos do Instituto, a saber:

  1. Promover e coordenar a intervenção pública sobre o espaço urbano do Município;
  2. Prover e integrar as atividades do sistema de informações geográficas, cartográficas, monográficas e dados estatísticos da Cidade;
  3. Subsidiar a fixação das diretrizes básicas ao desenvolvimento socioeconômico do Município.

Especial ênfase será dada no tocante à articulação dos artigos à proposta de desenvolvimento econômico da cidade. Desse modo, espera-se que os artigos multidisciplinares submetidos à revista respondam às necessidades de desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro.

/