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Volume

14

Edição

2

*Autor(a) correspondente flavia.carvalho@ioc.fiocruz.br

Publicado em 31 jul 2026

Como Citar?

CARVALHO, F. M. Desafios contemporâneos da saúde no Rio de Janeiro e Região Metropolitana: territórios, desigualdades e inovação em perspectiva. Coleção Estudos Cariocas, v. 14, n. 2, 2026.
DOI: 10.71256/19847203.14.2.254.2026

O artigo foi

originalmente

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Desafios contemporâneos da saúde no Rio de Janeiro e Região Metropolitana: territórios, desigualdades e inovação em perspectiva

Contemporary health challenges in Rio de Janeiro and the Metropolitan Region: territories, inequalities, and innovation in perspective

Desafíos contemporáneos de la salud en Río de Janeiro y Región Metropolitana: territorios, desigualdades e innovación en perspectiva

Flavia Martinez de Carvalho1

1Instituto Oswaldo Cruz - Fiocruz (Laboratório de Epidemiologia das Malformações Congênitas), Av. Brasil, 4365 Pavilhão Leônidas Deane - Manguinhos, Rio de Janeiro/RJ, 21040-360,

ORCID: 0000-0003-2617-9689, flavia.carvalho@ioc.fiocruz.br

O dossiê temático “Desafios contemporâneos da saúde no Rio de Janeiro e Região Metropolitana”, publicado no volume 14, número 2, da Coleção Estudos Cariocas, e no qual tive a honra de atuar como editora convidada, é composto por seis artigos originais e um artigo de opinião. Este último, elaborado por Behring (2026), apresenta uma reflexão crítica sobre os processos de transformação digital que vêm remodelando a gestão e a oferta de serviços de saúde, alertando para os riscos de ampliação das desigualdades quando a inovação tecnológica não é acompanhada por políticas de inclusão digital, participação social e governança democrática.

A coletânea reúne contribuições que abordam diferentes dimensões dos desafios contemporâneos da saúde no Rio de Janeiro e em sua Região Metropolitana, contemplando análises históricas, territoriais, epidemiológicas, assistenciais e urbanas. Embora distintos em seus objetos de investigação, os trabalhos convergem ao evidenciar que as condições de saúde da população são profundamente influenciadas pelos contextos sociais, espaciais e políticos que estruturam a vida cotidiana nos territórios metropolitanos. A saúde nas grandes cidades é produzida muito além dos limites dos serviços assistenciais. Ela resulta da interação entre condições de vida, mobilidade, acesso a direitos, organização do espaço urbano, desenvolvimento tecnológico e persistentes desigualdades socioeconômicas.

O dossiê se inicia com o artigo “Da dor à catarse urbana: pandemias, carnaval e os desafios contemporâneos da saúde no Rio de Janeiro”, que revisita o Carnaval de 1919, realizado após a pandemia de Gripe Espanhola, estabelecendo um diálogo histórico com o cenário pós-COVID-19 (Ramos; Soriano, 2026). Ao interpretar o Carnaval como espaço de reconstrução simbólica, ocupação do espaço público e retomada da vida coletiva, o estudo demonstra que os desafios sanitários associados aos megaeventos estão intrinsecamente relacionados às desigualdades sociais, às condições de mobilidade, à moradia e à governança urbana. A leitura proposta pelos autores dialoga com interpretações históricas da cidade do Rio de Janeiro presentes na obra de Ruy Castro (Castro, 2020), especialmente em O carnaval da guerra e da gripe, ao resgatar o Carnaval de 1919 como símbolo da recuperação social após a pandemia de gripe espanhola e como expressão da capacidade carioca de reconstruir laços coletivos em contextos de crise.

A dimensão espacial do acesso aos serviços de saúde é aprofundada em “Análise do deslocamento da população até as Clínicas da Família (CF) e aos Centros Municipais de Saúde (CMS) nas Regiões Geográficas do Município do Rio de Janeiro” por Lima et al. (2026). Com base nas novas possibilidades analíticas proporcionadas pelos dados georreferenciados do Censo Demográfico de 2022, os autores evidenciam desigualdades na distribuição territorial dos equipamentos de atenção primária, demonstrando que determinadas regiões da cidade apresentam maiores distâncias médias de deslocamento até os serviços de saúde.

Complementando o debate sobre as desigualdades territoriais no acesso à saúde, o artigo “Morfologia do confinamento: mapeamento open-source da acessibilidade vertical e vulnerabilidade de PcD na Favela da Rocinha, Rio de Janeiro (RJ)” por Barros et al. (2026) apresenta uma metodologia baseada em geotecnologias livres para analisar os desafios enfrentados por pessoas com deficiência em áreas urbanas de ocupação complexa. O estudo evidencia como barreiras geográficas e urbanísticas podem limitar a mobilidade e o acesso a serviços essenciais, reforçando a importância da acessibilidade como componente fundamental da justiça social e da promoção da saúde.

A atenção aos grupos mais vulneráveis também é contemplada por Rodrigues et al. (2026) no artigo “Seguimento ambulatorial interdisciplinar de recém-nascidos de alto risco: relato de experiência de uma década de um projeto extensionista em hospital universitário da Região Metropolitana do Rio de Janeiro”. Ao relatar a experiência do projeto SARAR no Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ), os autores destacam a relevância do acompanhamento interdisciplinar e longitudinal de recém-nascidos de alto risco, evidenciando o papel dos ambulatórios especializados na detecção precoce de agravos, na promoção do desenvolvimento infantil e na integração entre assistência, ensino e pesquisa. A saúde materno-infantil segue em destaque no artigo “Distribuição espacial e perfil epidemiológico materno-infantil dos nascidos vivos com fendas orofaciais no estado do Rio de Janeiro entre 2014 e 2023” (Souza et al. 2026). A partir da análise dos dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), os autores identificam diferenças regionais na prevalência das fendas orofaciais e discutem possíveis limitações dos sistemas de vigilância, contribuindo para o aprimoramento do monitoramento epidemiológico e para o planejamento de estratégias de atenção integral às crianças afetadas e suas famílias. O Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), principal sistema nacional de monitoramento dos nascimentos ocorridos no país (BRASIL, 2026), constitui importante fonte de dados para estudos epidemiológicos e para o planejamento de políticas públicas em saúde materno-infantil.

A interface entre saúde, mobilidade e qualidade de vida é explorada em “Mobilidade urbana na Cidade do Rio de Janeiro: desafios e propostas para promover segurança e retomada do espaço urbano por pedestres e ciclistas”. O artigo escrito por Blandy e Silva (2026) amplia a compreensão da mobilidade urbana como elemento central da promoção da saúde, defendendo cidades mais seguras, inclusivas e sustentáveis, nas quais o espaço público seja valorizado e compartilhado de forma democrática por diferentes modos de deslocamento.

Encerrando o dossiê, retomo o artigo de opinião “Entre a promessa de inovação e o abismo da desigualdade: o paradoxo digital no SUS no Rio de Janeiro” escrito por Behring (2026) que propõe uma reflexão necessária sobre os rumos da digitalização do sistema de saúde. Ao mesmo tempo em que reconhece os avanços proporcionados pela telessaúde e pelos sistemas digitais de informação, a autora alerta para a persistência de barreiras relacionadas à conectividade e ao letramento digital, reafirmando que a inovação somente cumprirá seu potencial transformador quando orientada pelos princípios da equidade e da universalidade que fundamentam o Sistema Único de Saúde (SUS).

Em conjunto, os artigos deste dossiê revelam a centralidade do território como categoria analítica para compreender os desafios contemporâneos da saúde no Rio de Janeiro. Seja na organização dos serviços, na mobilidade urbana, na acessibilidade de populações vulneráveis, na vigilância epidemiológica, no acompanhamento de recém-nascidos de alto risco ou na transformação digital do SUS, os trabalhos evidenciam que as desigualdades territoriais permanecem como um dos principais condicionantes da produção da saúde e do acesso ao cuidado. Espera-se que os estudos aqui reunidos contribuam para ampliar o diálogo entre pesquisadores, gestores, profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas, estimulando novas agendas de investigação e fortalecendo estratégias voltadas à redução das desigualdades e à promoção da saúde nos territórios. Em um contexto marcado por rápidas transformações sociais, tecnológicas e urbanas, este dossiê reafirma a importância da produção científica comprometida com a compreensão crítica da realidade e com a construção de soluções mais equitativas para a população fluminense.

Por fim, agradeço aos autores, pareceristas e à equipe editorial da Coleção Estudos Cariocas pelo compromisso com a produção e disseminação do conhecimento científico, tornando possível a realização deste importante dossiê temático.

Referências

BEHRING, Lilian Prates Belem. Entre a promessa de inovação e o abismo da desigualdade: o paradoxo digital no SUS no Rio de Janeiro. Coleção Estudos Cariocas, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, 2026. DOI: https://doi.org/10.71256/19847203.14.2.248.2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC). Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: https://datasus.saude.gov.br. Acesso em: 5 ago. 2026.

CASTRO, Ruy. O carnaval da guerra e da gripe. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

LIMA, F. da Silva; ZALOTI, F. Antunes; ALVES, G. de Oliveira; MENEZES, P. Márcio Leal de; FERNANDES, M. do Couto. Análise do deslocamento da população até as Clínicas da Família (CF) e aos Centros Municipais de Saúde (CMS) nas Regiões Geográficas do Município do Rio de Janeiro. Coleção Estudos Cariocas, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, 2026. DOI: https://doi.org/10.71256/19847203.14.2.227.2026.

BARROS, A. Martins; FAUSTINO, D. dos Santos; COSTA, L. da Silva; BANNITZ, W. C. de Souza. Morfologia do confinamento: mapeamento open-source da acessibilidade vertical e vulnerabilidade de PcD na Favela da Rocinha, Rio de Janeiro (RJ). Coleção Estudos Cariocas, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, 2026. DOI: https://doi.org/10.71256/19847203.14.2.230.2026.

RAMOS, D. Marques dos Santos; SORIANO, L. Souza. Da dor à catarse urbana: pandemias, carnaval e os desafios contemporâneos da saúde no Rio de Janeiro. Coleção Estudos Cariocas, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, 2026. DOI: https://doi.org/10.71256/19847203.14.2.224.2026.

RODRIGUES, M. C. C.; SILVA, A. Valente; MARINHO, C. de Lima; LA MACCHIA, D. Evangelista; FLOR, E. Oliveira; MENEZES, E. Rego et al. Seguimento ambulatorial interdisciplinar de recém-nascidos de alto risco: relato de experiência de uma década de um projeto extensionista em hospital universitário da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Coleção Estudos Cariocas, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 234, 2026. DOI: https://doi.org/10.71256/19847203.14.2.234.2026.

SILVA, M. Blandy; SILVA, C. Gonçalves Thaumaturgo da. Mobilidade urbana na Cidade do Rio de Janeiro: desafios e propostas para promover segurança e retomada do espaço urbano por pedestres e ciclistas. Coleção Estudos Cariocas, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 238, 2026. DOI: https://doi.org/10.71256/19847203.14.2.238.2026.

SOUZA, A. L. Meneguci Moreira Franco de; GOMES, A. C. Rodrigues Moreira; SOUZA, L. F. Rodrigues de; FRANCA, M. C. Barbosa Ferreira de; MATTOS, R. Coimbra Neves; CARVALHO, F. Martinez de. Distribuição espacial e perfil epidemiológico materno-infantil dos nascidos vivos com fendas orofaciais no estado do Rio de Janeiro entre 2014 e 2023. Coleção Estudos Cariocas, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 236, 2026. DOI: https://doi.org/10.71256/19847203.14.2.236.2026.

Sobre a Autora

Flavia Martinez de Carvalho é pesquisadora em saúde pública no Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), com sólida trajetória acadêmica e científica nas áreas de genética humana e médica, epidemiologia e anomalias craniofaciais. Possui graduação em Odontologia e especialização em Periodontia pela UERJ, onde também concluiu mestrado e doutorado, incluindo estágio sanduíche na Universidade de Pittsburgh (EUA) com foco em biologia molecular. É pós-doutora em Genética Humana e Médica pela UFRJ, com pesquisa voltada à identificação de genes candidatos para fendas orais em populações latino-americanas. Desde 2014, lidera projetos no Laboratório de Epidemiologia de Malformações Congênitas (LEMC/IOC/Fiocruz), atuando em estudos populacionais, genômica aplicada, subfenótipos de fendas orais, anomalias dentárias e condições sistêmicas com impacto na saúde bucal, além de inovação em fotogrametria craniofacial. Integra a Rede e Associação ECLAMC desde 2010, é docente e coordenadora de disciplina na pós-graduação em Genética da UFRJ e membro do Comitê de Ética em Pesquisa do IOC/Fiocruz. Atualmente é membro do Colegiado do Estudo Colaborativo Latino Americano de Malformações Congênitas (ECLAMC).

Contribuições da Autora

Conceituação; metodologia; software ; validação; análise formal; investigação; recursos; curadoria de dados;redação—preparação do rascunho original; redação—revisão e edição; visualização; supervisão; administração do projeto; aquisição de financiamento [F. M. C.].

Conflitos de Interesse

A autora declara não haver conflitos de interesse.

Sobre a Coleção Estudos Cariocas

A Coleção Estudos Cariocas (ISSN 1984-7203) é uma publicação de estudos e pesquisas sobre o Município do Rio de Janeiro, vinculada ao Instituto Pereira Passos (IPP) da Secretaria Municipal da Casa Civil da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Seu objetivo é divulgar a produção técnico-científica sobre temas relacionados à cidade do Rio de Janeiro, bem como sua vinculação metropolitana e em contextos regionais, nacionais e internacionais. Está aberta a quaisquer pesquisadores (sejam eles servidores municipais ou não), abrangendo áreas diversas - sempre que atendam, parcial ou integralmente, o recorte espacial da cidade do Rio de Janeiro.

Os artigos também necessitam guardar coerência com os objetivos do Instituto, a saber:

  1. Promover e coordenar a intervenção pública sobre o espaço urbano do Município;
  2. Prover e integrar as atividades do sistema de informações geográficas, cartográficas, monográficas e dados estatísticos da Cidade;
  3. Subsidiar a fixação das diretrizes básicas ao desenvolvimento socioeconômico do Município.

Especial ênfase será dada no tocante à articulação dos artigos à proposta de desenvolvimento econômico da cidade. Desse modo, espera-se que os artigos multidisciplinares submetidos à revista respondam às necessidades de desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro.

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